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Camel Up inverte a lógica de toda corrida de tabuleiro: você não controla camelo nenhum. Os camelos correm sozinhos, ao sabor de uma pirâmide que cospe dados, e o seu trabalho é apostar da arquibancada em quem lidera a etapa e em quem cruza a linha no fim.
Desenhado por Steffen Bogen e publicado pela eggertspiele em 2014, é um jogo de apostas para 2 a 8 jogadores que roda em 20 a 30 minutos e pesa 1.5 numa escala de 5. No mesmo ano venceu o Spiel des Jahres, o prêmio alemão de jogo do ano, batendo Splendor na disputa.
A mesa é um hipódromo no deserto: cinco camelos coloridos dão uma volta na pista, sobem uns nas costas dos outros, e uma pirâmide de plástico no centro decide cada passo.
A regra inteira sai em cinco minutos de explicação, e a primeira rodada já termina com a mesa gritando nome de camelo.
A MESA DE HOJE
Quem corre é o camelo
A pirâmide é o coração do jogo. Dentro dela moram cinco dados, um pra cada camelo, e cada dado só traz os números 1, 2 e 3. Alguém vira a pirâmide, solta a trava e cai UM dado por vez.
Saiu o dado azul, o camelo azul anda aquele tanto de casas. Ninguém escolhe quem corre: a corrida avança em sacudidas aleatórias, uma por turno, e a mesa inteira prende a respiração a cada dado que cai.
O empilhamento é a regra que transforma sorte em espetáculo. Camelo que termina o movimento numa casa ocupada sobe nas costas de quem já estava lá. E quando o camelo de baixo anda, carrega a pilha inteira de carona.
Um camelo em último lugar pode subir numa pilha de três, esperar o de baixo tirar um 3 e cruzar pra liderança sem gastar o próprio dado. Na disputa de posição, quem está mais alto na pilha conta como estando na frente.
No seu turno você escolhe uma única ação entre quatro. Pode sacudir a pirâmide e soltar um dado, o que paga uma moeda pelo serviço. Pode pegar uma ficha de aposta da etapa: cada camelo tem fichas de valor decrescente, e quem aposta primeiro na cor certa ganha mais.
Pode apostar no campeão ou no lanterna da corrida inteira, jogando uma carta secreta numa fila em que quem chega antes recebe mais. Ou pode posicionar sua ficha de deserto na pista: o lado oásis empurra o camelo que cair ali uma casa pra frente, o lado miragem puxa uma pra trás, e qualquer camelo que pisar na ficha paga uma moeda pra você.
Quando o quinto dado sai da pirâmide, a etapa fecha e as apostas pagam na hora. Acertou o líder, recebe o valor cheio da ficha; o camelo em segundo devolve um troco pequeno; errou feio, paga moeda. Os dados voltam pra pirâmide e a corrida segue pra próxima etapa.
A partida acaba quando um camelo cruza a linha de chegada, e aí as cartas secretas de campeão e lanterna pagam em cascata: quem apostou cedo e acertou leva a bolada, quem apostou errado paga multa. Vence quem junta mais moedas, não quem torceu mais alto.
A segunda edição, de 2018, adicionou dois camelos malucos, o preto e o branco, que correm no sentido contrário da pista. Eles não competem, mas atrapalham: quando um maluco anda, arrasta pra trás qualquer camelo de corrida que esteja empilhado nele. É mais uma camada de caos que deixa a leitura da pista deliciosamente instável, porque a pilha líder pode desmontar num único dado cinza.
PARA QUEM VALE
Para quem vale, e para quem não
Camel Up vale para a família inteira na mesma mesa, do primo de oito anos à avó que nunca jogou nada moderno. A regra sai em cinco minutos, o turno é uma decisão só, e a pirâmide é um brinquedo em si: criança briga pra ser quem sacode.
Com 6 a 8 jogadores o jogo vira arquibancada de verdade, com gente de pé torcendo por camelo de plástico, e mesmo lotado fecha em meia hora sem esticar.
Vale também pra quem gosta de ler risco. Por baixo da gritaria existe um exercício honesto de probabilidade: contar quais dados ainda estão na pirâmide, medir quando a ficha de cinco moedas compensa o chute e quando o seguro de sacudir a pirâmide rende mais. O jogador atento ganha com mais frequência, mesmo sem controlar camelo nenhum, e é aí que a rejogabilidade se sustenta.
Não compre esperando controle. Aqui ninguém constrói motor, ninguém executa plano de três turnos: os dados mandam, e uma pilha que desmonta na última sacudida vira qualquer previsão de cabeça pra baixo. Quem sofre com caos e sorte vai achar a corrida rasa e injusta, porque ela é as duas coisas de propósito.
Também não é jogo pra mesa vazia. Com 2 ou 3 jogadores a arquibancada some, sobra uma conta fria de probabilidade sem plateia, e o charme evapora. Camel Up pede gente, barulho e aposta atravessada na mesa; quanto mais cheia a sala, melhor ele fica.
O veredicto. Camel Up entendeu que a graça da corrida não está em correr, está em apostar da arquibancada. A pirâmide vira o croupier da mesa, o empilhamento transforma cada dado numa reviravolta, e oito pessoas fecham a partida em meia hora pedindo revanche.
Não é jogo de estratégia densa, é a melhor porta de entrada em jogos modernos pra família inteira, e o Spiel des Jahres de 2014 só confirmou o óbvio. |
NO RADAR
Três jogos que conversam com Camel Up
Downforce (Restoration Games, 2017), corrida de carros com cartas de mão e leilão de equipes, em que apostar na hora certa vale mais que pilotar bem. Peso 1.7, 45 minutos. Veredicto: vale comprar pra quem quer a mesma emoção de aposta com um pouco mais de controle na mão.
Flamme Rouge (Lautapelit, 2016), corrida de ciclismo em que cada jogador guia uma dupla de ciclistas administrando fadiga e vácuo. Peso 1.9, 45 minutos. Veredicto: vale comprar como próximo passo de quem gostou da corrida e quer trocar a aposta por pilotagem de verdade.
Colt Express (Ludonaute, 2014), assalto a trem em 3D com programação de ações e caos garantido, outro premiado que abre qualquer mesa. Peso 1.8, 40 minutos. Veredicto: vale esperar uma promoção se a estante já tem um jogo de festa caótico cobrindo a função.
ONDE COMPRAR
Camel Up: a festa que cabe em meia hora
Camel Up na segunda edição nacional sai entre R$249 e R$349 nas lojas de boardgame, com pirâmide de dados montável, camelos empilháveis, pista modular e regras em português. Não é o preço mais baixo da faixa leve, e a pirâmide explica a diferença: é componente de produção cara que nenhum outro jogo da estante substitui.
Vale garimpar, porque o título entra em promoção com frequência e a variação entre lojas passa de cem reais. O que justifica a compra é a função que ele cumpre sozinho: é o jogo que qualquer visita joga na primeira noite, aguenta mesa de oito sem inchar o relógio e volta pra mesa em festa de família o ano inteiro. Quem quer corrida com mais decisão e menos aposta pode olhar Flamme Rouge antes de decidir.
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