|
Catan é o jogo que fundou o hobby moderno de tabuleiro e virou a porta de entrada de quase todo mundo: o mapa se monta de novo a cada partida com peças hexagonais soltas, e a negociação acontece aberta, no centro da mesa, com todo mundo ouvindo.
Lançado na Alemanha em 1995 pela Kosmos e assinado por Klaus Teuber, ele levou o primeiro Spiel des Jahres da era moderna e abriu o mercado ocidental pro estilo alemão de jogo, sem eliminação de jogador, partida curta e decisão em cima de recurso escasso. Antes dele, jogo de tabuleiro pra adulto era guerra de horas ou sorte pura de dado, e Catan mostrou que dava pra ter as duas coisas numa hora só.
Roda de 3 a 4 jogadores na caixa base, fecha entre sessenta e noventa minutos e marca peso 2.3 na escala do BoardGameGeek, o degrau em que a regra sai em dez minutos mas a mesa continua tensa até o último ponto. O preço BR fica na faixa média, e o mapa modular garante que dois jogos seguidos nunca comecem iguais.
A MESA DE HOJE
Dados que distribuem, troca que decide, ladrão que trava
O tabuleiro são dezenove hexágonos de terreno embaralhados e encaixados de cara nova a cada partida: floresta dá madeira, colina dá tijolo, pasto dá lã, campo dá trigo e montanha dá minério, com um deserto morto no meio. Sobre cada hexágono vai uma ficha numerada de 2 a 12, e cada jogador fecha o setup plantando duas vilas e duas estradas nos cruzamentos.
O turno abre com dois dados. A soma que sair aciona todos os hexágonos daquele número, e quem tiver vila ou cidade encostada neles saca o recurso correspondente da reserva. É a sorte distribuindo matéria-prima, mas quem escolheu bem onde plantar no começo colhe mais vezes ao longo da noite.
Aí entra o coração do jogo, a troca aberta. No seu turno você negocia com qualquer um na mesa: oferece dois trigos por um minério, chora por uma madeira, empurra o recurso que te sobra pra destravar o que te falta. Quem não fecha com ninguém troca com o banco a quatro por um, ou a três por um e dois por um se tiver construído em cima de um porto.
Com recurso na mão você constrói. Estrada custa madeira mais tijolo, vila pede quatro recursos e vale um ponto, cidade sobe a vila por trigo e minério e passa a valer dois, e a carta de desenvolvimento sai de trigo, lã e minério. Vence quem chega a dez pontos primeiro, contando ainda dois pontos pra estrada mais longa e dois pro maior exército de cavaleiros.
Todo dado tem um sete, e o sete é o freio. Quem tirar sete move o ladrão pra cima de um hexágono, que para de produzir enquanto a peça estiver lá, e ainda rouba uma carta de quem tem vila encostada. Pior: todo jogador com mais de sete cartas na mão descarta metade, então acumular recurso demais é castigo na certa.
A tensão central é social e cruel: quem dispara na frente vira alvo de todo mundo. O líder não consegue mais fechar troca boa, recebe o ladrão parado no seu melhor hexágono rodada após rodada, e vê a mesa inteira torcer contra em silêncio. Esconder que você está perto dos dez pontos, e fechar a partida antes que percebam, é a jogada que separa quem ganha de quem lidera cedo e perde no fim.
PARA QUEM VALE
Para quem vale, e para quem não
Vale pra quem quer abrir a porta do hobby pra mesa toda. Catan é o jogo que converte quem só conhecia Banco Imobiliário e War, porque a regra é curta, a partida é rápida e ninguém sai eliminado no meio esperando os outros. É o primeiro passo mais testado que existe pra formar um grupo de jogo.
Vale pra mesa que gosta de conversar e barganhar. A troca aberta transforma a partida numa feira: promessa, blefe leve, aliança de uma rodada e traição na seguinte, tudo por cima do tabuleiro. Grupo que curte papo e negociação encontra aqui o motor social que outros jogos guardam só pra si.
Vale pro grupo com idades e níveis misturados. Criança grande, avó e veterano de jogo sentam na mesma mesa e disputam de igual pra igual, porque a sorte do dado dá chance a todos e a negociação premia quem lê gente, não só quem lê regra. Poucos jogos equilibram tão bem a mesa de família.
Não compre quem não tolera nenhuma sorte. O dado decide o que cada um colhe, e existe a noite em que o seu número não sai e você fica horas vendo os outros produzirem. A negociação amortece o azar, mas não apaga, e quem quer só cálculo puro vai xingar os dados.
Não compre pra quem detesta atrito social. O jogo obriga você a pedir, negar, cobrar favor e travar o líder na cara dele, e mesa que leva pro pessoal termina emburrada. Quem procura construir o próprio motor em silêncio, sem depender do humor dos outros, vai preferir um jogo sem negociação.
Não leve pra quem quer jogar sozinho. A caixa base começa em três jogadores, e mesmo o modo pra dois pede uma variante que descaracteriza o jogo. Sem gente na mesa pra trocar e travar, o coração do Catan simplesmente não bate.
O veredicto. Catan é o marco zero do hobby moderno e continua entre as melhores portas de entrada mais de trinta anos depois, com uma regra que se explica em dez minutos e uma negociação aberta que nenhum outro clássico do gênero fez tão bem. O mapa que se remonta a cada partida e o ladrão que trava quem dispara na frente mantêm a mesa tensa e viva até o último ponto, sem nunca punir o iniciante com regra demais.
Primeiro Spiel des Jahres da era moderna, peso 2.3 e preço BR na faixa média, é a compra mais segura pra quem quer formar um grupo de jogo em casa e joga de 3 a 4, contanto que a mesa aceite um pouco de sorte de dado e goste de barganhar cara a cara. |
NO RADAR
Três portas de entrada no hobby, ao lado do Catan
Três eurogames de entrada na mesma linhagem do Catan, cada um abrindo uma porta diferente do hobby, pra estante crescer sem repetir a mesma sensação de mesa.
Bohnanza (Amigo, 1997), o jogo de plantar feijão em que a troca é obrigatória e o dono da mão precisa negociar as cartas que não quer com todo mundo ao redor, a negociação do Catan destilada em pura barganha de cartas. Peso leve, cerca de 45 minutos, de 2 a 7 jogadores. Veredicto: vale comprar pra mesa grande que ama papo e barganha.
Ticket to Ride (Days of Wonder, 2004), o jogo de construir rotas de trem ligando cidades no mapa, com a mesma sensação de rede crescendo que as estradas do Catan dão, e uma regra ainda mais simples de ensinar. Peso leve, cerca de 60 minutos, de 2 a 5 jogadores. Veredicto: vale comprar pra quem quer o passo seguinte depois do Catan.
Carcassonne (Hans im Glück, 2000), o jogo em que o tabuleiro se monta peça a peça na mão dos jogadores, como os hexágonos do Catan, cada um colocando um pedaço de mapa e plantando seguidores pra pontuar cidade, estrada e campo. Peso leve, cerca de 35 minutos, de 2 a 5 jogadores. Veredicto: vale comprar pra mesa que quer construir o mapa junto.
ONDE COMPRAR
Catan: a porta de entrada do hobby numa caixa só
Catan sai entre R$250 e R$350 nas lojas de boardgame brasileiras, na edição em português da Devir, com os dezenove hexágonos de terreno, as fichas numeradas, as cartas de recurso e de desenvolvimento, as estradas, vilas e cidades de madeira e os dois dados, num material que aguenta a rodada semanal por anos sem gastar.
É a compra mais fácil de justificar pra quem está montando a primeira estante: ensina em dez minutos, cabe numa hora e nunca começa igual, porque o mapa se remonta antes da primeira jogada. Se a conta for o número de pessoas que essa caixa vai trazer pra mesa nos próximos anos, poucos jogos dessa faixa de preço convertem tanta gente nova.
|