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Dominion é o jogo que inventou o deck building e não tem tabuleiro nenhum: a mesa inteira são pilhas de cartas soltas, e cada partida usa só 10 dos 25 baralhos de reino que vêm dentro da caixa base.
Lançado pela Rio Grande Games em 2008 e assinado por Donald X. Vaccarino, ele levou o Spiel des Jahres de 2009 e criou um gênero inteiro do zero. Antes dele, comprar carta durante a partida pra montar o próprio baralho não era mecânica de jogo de mesa, era coisa de card game colecionável que exigia comprar booster à parte pra continuar competitivo.
Roda de 2 a 4 jogadores, fecha em trinta minutos e marca peso 2.4 na escala do BoardGameGeek, o degrau em que a regra cabe numa explicação de dez minutos mas a decisão continua difícil na centésima partida. O preço BR fica na faixa média alta, e só a caixa base já entrega mais de três milhões de mesas diferentes.
A MESA DE HOJE
Dez pilhas escolhidas de vinte e cinco, e a mesa nunca repete
Todo mundo começa igual e pobre. Seu baralho inicial tem dez cartas: sete Cobres, que valem uma moeda cada, e três Propriedades, que valem um ponto de vitória no fim e absolutamente nada durante a partida. Você embaralha, compra cinco cartas e joga com o que veio.
O turno cabe numa frase: jogue uma carta de Ação, gaste as moedas da sua mão em uma Compra, descarte tudo e puxe cinco cartas novas. A carta que você acabou de comprar vai pro monte de descarte, não pra sua mão, então ela só reaparece quando o baralho esvazia e o descarte inteiro volta embaralhado.
O centro da mesa tem duas partes. De um lado, as pilhas fixas que estão em toda partida: Cobre, Prata e Ouro pro dinheiro, Propriedade, Ducado e Província pros pontos, e a pilha de Maldições que só entra em cena quando alguém compra uma carta de ataque. Do outro lado, as dez pilhas de reino escolhidas antes de começar.
Aí mora o motivo de o jogo não envelhecer. São 25 baralhos de reino na caixa base e você separa 10 pra mesa daquela noite, o que dá mais de três milhões de combinações possíveis sem comprar uma única expansão. Cada seleção muda o jogo de verdade, porque a estratégia vencedora de uma mesa vira lixo na seguinte.
As cartas de reino são o tempero. Vila devolve duas ações e destrava correntes inteiras, Ferreiro compra três cartas de uma vez, Capela destrói suas próprias cartas fracas pra deixar o baralho magro e afiado, Milícia obriga os rivais a descartar e Bruxa despeja Maldições no monte alheio. A dupla Vila mais Ferreiro é o primeiro combo que todo mundo descobre, e a Capela é a que separa quem entendeu o jogo de quem só está comprando Ouro.
A tensão central é cruel e elegante: carta de vitória é peso morto. Cada Província que você compra vale seis pontos e entope o baralho com uma carta que não faz nada quando cai na sua mão. Comprar cedo demais engasga seu motor, comprar tarde demais deixa o rival abrir vantagem impossível, e a partida acaba quando a pilha de Províncias esvazia ou quando três pilhas quaisquer chegam ao fim. Ler o momento exato de virar a chave do motor pra pontuação é a decisão que define o vencedor.
PARA QUEM VALE
Para quem vale, e para quem não
Vale pra quem quer conhecer o gênero na fonte. Todo deck building que existe hoje, do Star Realms ao Dune Imperium, nasceu dessa caixa, e jogar o original ensina a gramática do gênero inteiro em uma noite. Depois de entender Dominion, qualquer outro deck building fica mais fácil de aprender.
Vale pra mesa de tempo curto e ritmo alto. Trinta minutos por partida, setup de cinco, e uma pressa boa que faz todo mundo pedir a revanche na hora. Como o baralho de cada um evolui de forma diferente a cada rodada, a segunda partida da noite quase nunca parece a repetição da primeira.
Vale pro grupo com níveis diferentes de experiência. A regra sai em dez minutos e o iniciante consegue jogar bem já na primeira partida seguindo o instinto de comprar dinheiro melhor. O veterano continua tendo o que otimizar, então ninguém fica entediado nem humilhado na mesma mesa.
Não compre esperando tabuleiro bonito. Dominion é dez pilhas de cartas numa mesa e mais nada, sem miniatura, sem mapa, sem peça de madeira. Quem escolhe jogo pela presença visual na estante vai achar a caixa sem graça, por mais que o motor por dentro seja perfeito.
Não compre se sua mesa quer conflito direto. A interação existe, mas passa quase toda por cartas de ataque que fazem o rival descartar ou receber Maldição, e nas mesas sem essas cartas cada um joga o próprio baralho quase em paralelo. Quem procura negociação, blefe ou briga por território não encontra aqui.
Não leve pra quem trava com escolha demais. Separar 10 baralhos de 25 antes de cada partida paralisa uma parte das mesas, principalmente na primeira semana. A caixa traz seleções prontas e recomendadas pra resolver o impasse, mas quem não gosta de montar o próprio jogo antes de jogar vai sentir a etapa como trabalho.
O veredicto. Dominion é o avô do deck building e continua entre os melhores do gênero quase vinte anos depois, com uma regra que se explica em dez minutos e uma profundidade que só aparece de verdade lá pela décima partida. Escolher 10 dos 25 baralhos de reino antes de cada mesa transforma a mesma caixa em mais de três milhões de jogos diferentes, e a tensão de decidir quando parar de construir o motor pra começar a comprar pontos nunca envelhece.
Spiel des Jahres de 2009, peso 2.4 e preço BR na faixa média alta, é a compra mais sólida pra quem joga de 2 a 4 e quer um jogo de trinta minutos que aguenta anos de estante, contanto que a mesa aceite pilhas de carta no lugar de tabuleiro. |
NO RADAR
Três deck buildings herdeiros do Dominion
Três deck buildings que descendem do Dominion, do mais leve ao mais denso, pra estante crescer sem repetir a mesma sensação de mesa.
Star Realms (White Wizard Games, 2014), o deck building espacial de caixinha em que dois jogadores compram naves e bases pra derrubar a autoridade do rival até zero, o gênero inteiro comprimido em vinte minutos e num preço bem menor. Peso leve, cerca de 20 minutos, feito pra 2 jogadores. Veredicto: vale comprar pra quem quer o gênero na mochila e a dois.
Clank! (Renegade Game Studios, 2016), o deck building que colocou um tabuleiro de masmorra embaixo do baralho, onde cada carta barulhenta acorda o dragão e a fuga com o tesouro vale a partida inteira. Peso médio, cerca de 60 minutos, de 2 a 4 jogadores. Veredicto: vale comprar pra mesa que quer deck building com tensão de corrida.
Dune: Imperium (Dire Wolf, 2020), o cruzamento de deck building com alocação de trabalhadores em que cada carta comprada também define onde seu agente pode ir no mapa de Arrakis. Peso pesado, 60 a 120 minutos, de 1 a 4 jogadores. Veredicto: vale comprar pra quem já domina o Dominion e quer o degrau seguinte.
ONDE COMPRAR
Dominion: o gênero inteiro numa caixa só
Dominion sai entre R$280 e R$400 nas lojas de boardgame brasileiras, na edição em português, com as 25 pilhas de reino, os baralhos de tesouro, vitória e maldição, as cartelas de referência e o insert que organiza tudo por pilha, num material que aguenta a rodada semanal por anos sem descascar.
É a compra mais defensável da estante em valor por partida: monta em cinco minutos, ensina em dez e nunca entrega a mesma mesa duas vezes, porque a seleção de 10 baralhos muda o jogo antes da primeira carta ser comprada. Se a conta for o custo dividido pelo número de partidas que a caixa ainda vai rodar nos próximos cinco anos, poucos jogos dessa faixa de preço chegam perto.
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