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Great Western Trail pega a imagem mansa de tocar uma boiada e esconde três motores de estratégia por baixo dela. Parece faroeste temático por fora, é pura otimização por dentro, e eu defendo que todo grupo pesado devia estudar esse jogo a fundo.
Desenhado por Alexander Pfister e publicado pela eggertspiele em 2016, é um euro competitivo para 2 a 4 jogadores que dura de 75 a 150 minutos e pesa 3.7 numa escala de 5.
Cada jogador leva seus rebanhos do Texas até a estação de Kansas City, embarca o gado no trem e escolhe destinos ao longo da ferrovia, tudo enquanto o trajeto vai ganhando prédios que os próprios jogadores constroem.
A regra base entra em uma partida, mas o jogo só se abre depois de três ou quatro sessões, quando você enxerga como os motores se conversam.
A MESA DE HOJE
Uma trilha, três motores por baixo
O tabuleiro é uma trilha física que serpenteia do sul até a cidade. No seu turno você move seu peão um número de espaços e ativa a ação do local onde parar, seja um prédio neutro, seja um prédio construído por qualquer jogador na mesa.
Parar num prédio adversário ainda funciona, mas rende menos, e essa tensão de trajeto é o primeiro motor: quanto andar, onde pisar, o que ativar.
O segundo motor é o deckbuilding do gado. Você começa com um rebanho fraco, cheio de vacas de baixo valor, e usa o dinheiro ganho no percurso para comprar reses melhores no mercado.
Quando chega a Kansas City, a soma dos valores das raças distintas na sua mão define quanto o embarque rende e quão longe o trem alcança. Comprar gado caro sem melhorar a mão é dinheiro parado, então cada compra precisa mirar sinergia de raças, não só valor bruto.
O terceiro motor é a construção. Cada jogador tem prédios próprios que instala na trilha, e cada prédio novo muda o mapa para todo mundo, cria atalhos, ações mais fortes e armadilhas de posicionamento.
Some a isso os funcionários que você contrata, cowboys que compram gado melhor, artesãos que erguem prédios mais rápido e engenheiros que estendem os trilhos, e você tem três subsistemas que só pontuam de verdade quando trabalham juntos.
Vencer é achar o equilíbrio entre andar, embarcar e construir sem afundar em nenhum sozinho.
Os componentes da eggertspiele são fartos e funcionais. Tabuleiro grande de trilha sinuosa, dezenas de peças de prédio em madeira, cartas de gado com arte sóbria de faroeste, discos de estação e marcadores de trem, tudo organizado para uma mesa que vai ficar cheia.
Não é o jogo mais bonito da prateleira, mas cada peça tem função clara, e a leitura da trilha permanece limpa mesmo com quatro jogadores construindo por cima dela.
PARA QUEM VALE
Para quem vale, e para quem não
Great Western Trail vale para quem já passou dos jogos leves e quer o primeiro euro pesado de verdade, com motores que recompensam quem estuda o sistema entre partidas. É um dos euros mais elogiados da década justamente porque parece temático por fora e é pura otimização por dentro.
Vale para o grupo que joga sempre junto e curte dominar um jogo a fundo, para quem gosta de deckbuilding mas quer mais do que só comprar cartas, e para quem aceita uma primeira partida meio confusa em troca de uma quinta partida que vira obsessão.
E vale para quem quer um único jogo pesado que aguenta dezenas de sessões sem cansar.
Não compre esperando algo rápido, casual ou fácil de ensinar numa noite qualquer. Great Western Trail exige atenção, castiga jogadas cegas e afasta quem só quer relaxar.
O tempo de partida assusta, o tabuleiro intimida na primeira montagem, e quem não gosta de calcular rota vai se sentir perdido. Também não é o jogo para levar num encontro casual com quem nunca sentou numa mesa pesada, porque a curva de entrada é real e ninguém aprende no susto.
O veredicto. Great Western Trail é o euro que esconde três jogos dentro de uma boiada. Pfister disfarçou uma máquina de otimização de trajeto, deckbuilding e construção num tema de faroeste que engana pela simplicidade.
A primeira partida confunde, a terceira revela, e da quinta em diante o jogo vira estudo. Poucos euros pesados entregam tanta profundidade com uma imagem tão fácil de explicar na caixa. |
NO RADAR
Três jogos que conversam com Great Western Trail
Concordia (PD-Verlag, 2013), euro de comércio no Mediterrâneo em que suas cartas são a mão de ações e nunca se descartam. Peso 2.9, 100 minutos. Veredicto: vale comprar para quem quer euro de motor com entrada mais suave.
Terraforming Mars (FryxGames, 2016), euro de engine building com cartas que se acumulam num tableau planetário. Peso 3.2, 120 minutos. Veredicto: vale comprar como segundo euro pesado da estante para quem curtiu os motores.
Brass: Birmingham (Roxley, 2018), euro econômico de redes industriais com camadas de crédito e canais, mesmo DNA de otimização impiedosa e tensão de posicionamento. Peso 3.9, 120 minutos. Veredicto: vale esperar uma promoção se a estante já cobre um euro pesado.
ONDE COMPRAR
Great Western Trail: euro pesado de referência
Great Western Trail na edição nacional sai entre R$299 e R$399 nas lojas de boardgame, com regras e cartas totalmente em português no que já saiu por aqui. O estoque oscila entre a primeira e a segunda edição, e o frete varia conforme a loja, então vale comparar antes de fechar.
O preço é de euro pesado de peso completo, e se justifica pela rejogabilidade que passa de dezenas de partidas, pela profundidade que só cresce com o grupo e pela reputação de referência do gênero. Caixa densa, montagem que pede espaço, e a segunda edição já traz ajustes finos que valem a preferência. Quem quer euro de motor com entrada mais leve pode olhar Concordia antes de decidir.
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