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Hansa Teutonica é o euro mais honesto que eu conheço: seco, direto e agressivo, sem tema de enfeite por cima. Quem chama de árido nunca sentou numa disputa de rota com esse jogo aberto na mesa.
Publicado pela Pegasus Spiele, com design de Andreas Steding, é um eurogame mercantil de construção de rotas para 2 a 5 jogadores que dura de 45 a 90 minutos e pesa 2.9 numa escala de 5.
Você ergue a rede comercial da Liga Hanseática medieval cidade por cidade, e descobre logo na primeira partida que metade do jogo é planejar a sua rota e a outra metade é estragar a do vizinho.
A MESA DE HOJE
Construir rede e empurrar o oponente
O tabuleiro é um mapa de cidades hanseáticas ligadas por trilhas de postos comerciais. No seu turno você tem ações para gastar, e quase todas servem para colocar comerciantes nessas trilhas, completar uma rota inteira e então reivindicar a cidade na ponta.
Reivindicar uma cidade rende uma de duas coisas que importam: ou um avanço numa das suas habilidades pessoais, ou uma marca de presença numa rede que pontua no fim. A graça é que tudo que você melhora se paga sozinho mais tarde.
As habilidades são o coração seco do jogo. Você começa fraco em tudo: poucas ações por turno, poucos comerciantes para repor, pouco alcance de movimento.
Cada cidade certa que você fecha pode subir um desses trilhos, e a diferença entre um jogador com três ações e um com cinco é brutal.
Quem investe cedo na própria máquina passa o resto da partida fazendo mais com menos, e quem corre atrás de ponto fácil no começo trava no meio sem fôlego para reagir.
Aí entra o que torna Hansa Teutonica diferente do euro solitário de plantar e colher. A interação é direta e na cara.
Quando um adversário ocupa uma trilha que você queria, você pode deslocar o posto dele pagando o preço, e ele volta para a reserva ou para a mão dependendo de quantos comerciantes empilhou ali.
Bloquear a rota certa na hora certa atrasa o plano inteiro do outro, e a mesa vira um xadrez comercial onde cada posto colocado é também uma ameaça. Não existe se esconder no próprio canto. O tabuleiro é apertado de propósito.
Os componentes são funcionais antes de bonitos. Cubos e discos de madeira em cinco cores, um mapa de cartolina sóbrio, fichas de marcador sem firula. É a estética de planilha que assusta quem chega pela capa, e é exatamente o que o público-alvo quer: nada distrai da decisão. O que pesa aqui é a posição no tabuleiro, não a ilustração.
PARA QUEM VALE
Para quem vale, e para quem não
Hansa Teutonica vale para quem já passou do gateway e quer um euro de interação agressiva sem virar jogo de guerra. Vale para grupo fixo que joga sempre junto, porque o jogo premia ler a intenção do outro e cresce a cada partida repetida.
Vale para quem gosta de motor de habilidades que se constrói diante dos olhos e detesta depender de sorte para qualquer coisa. A dois ele fica mais analítico e cirúrgico, com cinco vira uma briga de cotovelo deliciosa por espaço.
Não compre esperando tema imersivo nem produção de luxo. Quem quer mercadores com arte caprichada e narrativa de comércio medieval vai achar tudo abstrato e cinza demais. Quem foge de conflito direto e só curte otimizar o próprio tabuleiro em paz vai se incomodar com o deslocamento constante de peças.
E quem joga com gente avessa a bloquear não vê metade da profundidade, porque o jogo só revela o que tem quando todo mundo aceita empurrar e ser empurrado.
O veredicto. Hansa Teutonica é o eurogame seco que premia o estrategista sem dó. Rede comercial enxuta, motor de habilidades viciante e interação agressiva que transforma cada trilha em disputa. Sem sorte, sem firula, sem perdão. Um clássico que recompensa exatamente quem joga melhor, e por isso mesmo não é para todo mundo. |
NO RADAR
Três jogos que conversam com Hansa Teutonica
Concordia (PD-Verlag, 2013), eurogame de comércio no Mediterrâneo com deck building enxuto e zero sorte. Peso 3.0, 90 minutos. Veredicto: vale comprar para quem quer profundidade parecida com interação mais civilizada.
Power Grid (Rio Grande Games, 2004), leilão e abastecimento de cidades com tensão econômica brutal. Peso 3.3, 120 minutos. Veredicto: vale comprar se você curtiu a disputa por espaço e topa um pouco mais de peso.
Ticket to Ride (Days of Wonder, 2004), construção de rotas de trem para quem está chegando agora. Peso 1.7, 45 minutos. Veredicto: vale esperar se você já joga euro médio, serve mais como porta de entrada para quem nunca construiu uma rota.
ONDE COMPRAR
Hansa Teutonica: caça ao estoque que vale a paciência
Hansa Teutonica vive uma situação ingrata por aqui: a edição nacional anda esgotada e o jogo circula no Brasil sobretudo importado, com preço entre R$390 e R$520 conforme a versão e o câmbio do dia.
A Big Box internacional, que junta o base com expansões, aparece em pré-venda e importação a valores mais altos ainda. Quem encontra a edição em português numa loja nacional fecha sem pensar duas vezes, porque o estoque some rápido e demora a voltar.
Não é compra de impulso nem jogo de primeira estante, mas para o grupo certo justifica cada real. Quem quer a mesma classe com disponibilidade melhor pode olhar Concordia antes.
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