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Harmonies faz uma coisa rara pra um jogo tão bonito: entrega profundidade de verdade sem nunca deixar a mesa tensa. Você tem um saco de fichas coloridas, um tabuleiro pessoal com uma grade de hexágonos, e a cada turno pega três fichas e as encaixa pra construir montanhas, florestas, campos, lagos e edifícios.
O placar não vem das peças em si, vem do bicho que consegue morar no habitat que você desenhou. Publicado pela Libellud em 2024, é um jogo de placement para 1 a 4 jogadores que roda em 30 a 45 minutos e pesa 2.1 numa escala de 5.
Virou fenômeno de vendas quase de imediato, e por um motivo simples: qualquer pessoa senta, entende em dois minutos, e ainda assim tem o que otimizar até o último turno.
A MESA DE HOJE
Fichas coloridas viram montanha, floresta e lago
A regra central cabe numa frase: você tira três fichas do saco, escolhe onde encaixar cada uma na sua grade de hexágonos, e o modo de empilhar decide que tipo de terreno nasce ali. Cada cor tem uma gramática própria de construção.
A ficha marrom vira montanha só quando empilhada, uma no chão, outra em cima, outra no topo, formando um pico de três andares. A verde só conta como árvore quando fica sobre uma base marrom de um ou dois andares, folha em cima de tronco.
A azul de água precisa se ligar em rio, correndo por hexágonos vizinhos. A amarela de campo se espalha em manchas rasas, e a cinza de pedra fica solta, isolada.
Isso muda tudo, porque a ficha não vale nada pela cor. Ela vale pela posição e pela altura. Colocar uma peça verde no lugar errado não constrói árvore nenhuma, vira só um token perdido ocupando um hexágono que você vai querer de volta.
A tensão gostosa do jogo mora aí: você recebe três fichas aleatórias e precisa achar o melhor destino pra cada uma numa grade que já está meio cheia. Não dá pra segurar peça pra depois. O que veio do saco, você planta agora.
O placar de verdade vem das cartas de animais. No centro da mesa fica um mercado de fichas de bicho, cada uma pedindo um padrão específico de terreno pra pontuar. A raposa quer floresta ao lado de campo. O peixe quer água cercada de água. A águia quer montanhas altas em diagonal.
Você compra a carta, coloca um cubo do animal sobre o hexágono que fecha o padrão, e a partir daí aquele arranjo virou o ninho dele. Um mesmo pedaço da sua grade pode alimentar dois ou três bichos ao mesmo tempo, se você planejar a sobreposição.
A graça está em construir o cenário e o zoológico juntos, na mesma jogada. Cada ficha que você encaixa tem que responder duas perguntas ao mesmo tempo: ela ajuda a completar um habitat bonito, e ela avança algum animal que você já se comprometeu a alimentar?
O jogador que enxerga esse duplo uso transforma três fichas comuns num salto de pontos. Quem só empilha pela estética acaba com uma grade linda que não abriga bicho nenhum, e a pontuação fica no chão.
A pontuação final soma três frentes. Os animais que você conseguiu assentar valem o grosso dos pontos, cada um pela quantidade de cubos que você colocou. Os habitats grandes e bem-conectados dão bônus próprio, montanha alta, floresta densa, rio comprido, cada terreno tem sua tabela.
E sobra a penalidade das fichas mortas, aqueles hexágonos que ficaram sem função no fim. O vencedor costuma ser quem desperdiçou menos, não quem construiu mais, e a diferença sai por poucos pontos.
PARA QUEM VALE
Para quem vale, e para quem não
Harmonies vale pra qualquer mesa que quer um jogo bonito de manusear sem a briga de um euro pesado. As fichas são de madeira, empilham de verdade, e no fim da partida a sua grade parece uma maquete de paisagem, com picos e bosques que você construiu peça por peça.
É o tipo de jogo que atrai gente que nem curte boardgame, porque a mesa fica atraente de olhar e a regra entra rápido. Serve de porta de entrada e ao mesmo tempo aguenta jogador experiente pela camada de otimização escondida.
Vale também pra quem gosta de puzzle espacial calmo. Por baixo da estética fofa existe um problema honesto de encaixe: onde plantar cada ficha pra completar terreno sem entupir o espaço que outro animal vai precisar, quando comprar uma carta nova e quando fechar as que você já tem.
Se vale subir uma montanha alta agora ou espalhar campo pra alimentar dois bichos rasos. O jogador que planeja a grade dois turnos à frente ganha com consistência, e a rejogabilidade se sustenta no saco aleatório somado ao mercado de animais que muda toda partida.
Não compre esperando interação direta. Aqui ninguém mexe na sua grade, ninguém rouba sua ficha, ninguém bloqueia seu terreno. A única disputa entre jogadores é o mercado central de cartas de animal, onde o bicho que você queria pode ser levado por outro antes da sua vez.
Fora esse pequeno empurra-empurra, cada um cuida do próprio tabuleiro em silêncio. Quem precisa de confronto na mesa vai achar o jogo distante, porque a competição acontece toda na comparação dos placares no fim.
Também não é jogo pra quem quer complexidade estratégica de peso. As decisões são boas, mas a sorte do saco pesa: às vezes vêm três fichas que não conversam com nada da sua grade, e você planta por obrigação.
A profundidade é real, mas mora no médio-leve, não no cérebro fervendo. Serve como jogo de mesa de família, abertura relaxada de noite, companheiro de fim de tarde com café, ou aquele título que fica sempre montado na estante porque dá vontade de mexer nas peças. Exige menos paciência na primeira partida do que quase todo jogo desse tipo.
O veredicto. Harmonies provou que um jogo pode ser calmo, bonito de manusear e ainda assim ter miolo. Fichas de madeira que empilham, um habitat que cresce na sua frente, e um placar que premia quem faz a paisagem e o bicho conversarem na mesma jogada.
Não é jogo de confronto nem de estratégia pesada, é o placement mais convidativo da safra recente, e as vendas explosivas de 2024 só carimbaram o que a mesa sente quando a primeira floresta fica pronta e o animal finalmente encontra onde morar. |
NO RADAR
Três jogos que conversam com Harmonies
Azul (Next Move, 2017), o clássico de coleta de azulejos coloridos que todos preenchem no próprio painel a partir da mesma oferta central. Peso 1.8, 40 minutos. Veredicto: vale comprar pra quem quer a mesma tatilidade de peça bonita, com padrão de mosaico no lugar do habitat.
Cascadia (Flatout Games, 2021), o encaixe de hexágonos de terreno em que você monta ecossistemas e posiciona fauna pra pontuar padrões. Peso 1.9, 45 minutos. Veredicto: vale comprar como próximo passo natural de quem gostou de casar terreno com bicho e quer camada tática um pouco mais gorda.
Calico (Flatout Games, 2020), o quilting de retalhos em que você costura padrões de cor e textura pra atrair gatos. Peso 2.4, 45 minutos. Veredicto: vale esperar uma promoção se a estante já tem um jogo de encaixe espacial cobrindo a função de puzzle calmo.
ONDE COMPRAR
Harmonies: o habitat que cresce na sua frente
Harmonies na edição nacional, publicada pela Galápagos, sai entre R$249 e R$329 nas lojas de boardgame, com os tabuleiros pessoais, o saco de fichas de madeira coloridas, o mercado de cartas de animal, os cubos e regras em português. É preço de faixa média, mas o que você recebe na caixa justifica: são centenas de fichas de madeira encorpadas que empilham de verdade, não punchboard fino, e a produção é o cartão de visita do jogo.
O que sustenta a compra é a função que ele cumpre sozinho na estante: é o jogo bonito que sai da caixa em qualquer mesa, entra em dois minutos pra quem nunca jogou, roda solo com modo de desafio próprio, e ainda entrega otimização de sobra pra quem quer espremer cada ficha. Quem quer o mesmo casamento de terreno com fauna, com camada tática um pouco mais densa e caixa mais barata, pode olhar Cascadia antes de decidir, mas pela beleza física e pela facilidade de mesa, esse aqui é difícil de bater.
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