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Kingdom Builder pega a fantasia mais simples do hobby, expandir um reino pelo mapa, e transforma ela num eurogame leve que muda de rosto a cada vez que você senta pra jogar. O tabuleiro nunca é o mesmo, ele é montado do zero com peças de terreno embaralhadas em ordem aleatória, criando um mapa novo em cada partida.
Você não decora uma estratégia vencedora e repete, porque na próxima mesa o terreno vai forçar outro caminho. Publicado pela Queen Games em 2011 e vencedor do Kennerspiel des Jahres daquele ano, é o tipo de jogo que se explica em cinco minutos e se joga em quarenta, sem perder a sensação de que cada decisão pesa.
Roda de 2 a 4 jogadores, e é um dos exemplos mais claros de como um eurogame pode ser leve na regra e ainda assim exigir leitura tática real.
A MESA DE HOJE
O mapa decide antes de você jogar a primeira carta
O coração de Kingdom Builder é o tabuleiro modular. Antes de qualquer jogador tocar numa peça, o jogo já monta um cenário novo combinando quadrantes de terreno em ordem sorteada, floresta, deserto, água e planície se encaixam formando um mapa irregular, cheio de gargalos, ilhas de recursos e regiões isoladas por montanha. Esse mapa é o verdadeiro adversário da partida, mais até que os outros jogadores.
Na sua vez, você compra uma carta de terreno e constrói assentamentos nesse tipo de terreno, sempre encostados num já existente ou na borda do tabuleiro. Não existe carta de ataque, não existe roubo direto de território, o jogo inteiro se resolve em onde você planta a próxima casa. E como o baralho de terreno é aleatório, você raramente recebe o tipo que gostaria no momento que gostaria, então a habilidade real está em aproveitar o terreno que caiu, não em esperar o ideal.
Encostado nisso mora o sistema de cartas de reino, regras de pontuação sorteadas no início da partida que definem o que vale ponto. Uma carta pode premiar quem cerca lagos, outra quem constrói perto de montanhas isoladas, outra quem forma a maior rede contígua de assentamentos.
Três dessas cartas são reveladas antes do primeiro turno, e são elas que transformam o mesmo mapa em objetivos completamente diferentes de partida pra partida.
É essa combinação, mapa sorteado mais objetivos sorteados, que faz uma estratégia fixa não sobreviver. O jogador que tenta repetir a abertura que funcionou semana passada descobre que o terreno simplesmente não oferece o mesmo caminho, e quem lê o tabuleiro na mesa, em vez de seguir um roteiro de cabeça, é quem sai na frente.
Cada assentamento colocado também pode destravar um poder especial, ligado ao tipo de terreno em que ele fica. Um poder deixa você construir pela água, outro te leva mais longe em linha reta, outro rouba uma casa isolada do adversário sem confronto direto algum. Esses poderes mudam a geometria do que é possível no seu turno, e o jogador atento redesenha o próprio plano a cada novo poder liberado.
O ritmo da partida é enxuto: cada turno é rápido, a decisão é sempre a mesma pergunta, onde construir agora pra abrir o próximo turno, e isso faz quarenta minutos renderem uma sensação de jogo denso sem cansar ninguém na mesa. É um eurogame que entrega peso estratégico com regra de bolso.
PARA QUEM VALE
Para quem vale, e para quem não
Vale pra mesa que quer eurogame de verdade sem a barreira de entrada dos pesados. A regra cabe numa explicação de cinco minutos, mas a leitura de mapa e objetivo sorteado entrega uma profundidade tática que jogo leve raramente alcança. É a porta de entrada certa pra quem quer sair do jogo de festa e ainda não está pronto pro peso de um Brass.
Vale pra quem gosta de rejogabilidade de verdade, não de enfeite. Como o tabuleiro é remontado e os objetivos são sorteados a cada partida, a mesma caixa entrega um jogo genuinamente diferente cada vez que abre, sem depender de expansão pra isso. É difícil cansar de Kingdom Builder pelo motivo errado, o de já ter visto tudo.
Vale pra grupo misto, com jogador experiente e jogador iniciante na mesma mesa. Como a regra é simples e o jogo não tem confronto direto nem eliminação, quem está aprendendo consegue competir de verdade, e quem já joga muito eurogame ainda encontra decisão real na leitura do mapa, uma raridade que agrada os dois perfis ao mesmo tempo.
Vale também pra quem prefere partida curta e decisiva. Quarenta minutos é pouco pra um eurogame, e Kingdom Builder usa esse tempo inteiro pra decisão, sem fase de setup arrastada nem final estendido, o que o torna fácil de encaixar numa noite de jogo sem virar o evento principal dela.
Não compre esperando profundidade de jogo pesado. Não tem árvore de tecnologia, não tem gestão de recurso complexa, não tem confronto direto entre jogadores, e quem já joga eurogame pesado há anos pode achar a experiência rasa demais depois de algumas partidas seguidas.
Não compre também se sua mesa gosta de interação direta e sabotagem. Kingdom Builder é fundamentalmente um jogo paralelo, cada jogador constrói o próprio reino no mesmo mapa sem atacar o do outro diretamente, e quem busca confronto e tensão de disputa corpo a corpo vai sentir falta dessa camada aqui.
O veredicto. Kingdom Builder prova que eurogame leve não precisa abrir mão de decisão real. O tabuleiro modular sorteado a cada partida e os objetivos de pontuação embaralhados no início fazem qualquer estratégia fixa morrer antes da primeira carta comprada, obrigando o jogador a ler o mapa que tem na frente, não o que ele planejou em casa.
Com regra explicada em cinco minutos e partida de quarenta, é a porta de entrada honesta pro domínio de território, boa pra mesa mista e difícil de cansar. |
NO RADAR
Três jogos que conversam com Kingdom Builder
Isle of Skye (Lookout Games, 2015), tabuleiro modular montado peça a peça pelos próprios jogadores, com leilão simultâneo definindo preço de cada tile antes de encaixar. Peso leve, 40 a 60 minutos, até 5 jogadores. Veredicto: vale comprar pra quem quer o mesmo prazer de mapa mutável com uma camada extra de negociação de preço.
Cacao (Days of Wonder, 2016), colocação de peças formando território de plantação com tabuleiro que cresce peça a peça, foco em cadeia de produção e comércio simples. Peso leve, 30 a 45 minutos, até 4 jogadores. Veredicto: vale comprar pra quem quer regra ainda mais enxuta com o mesmo apelo de montar mapa na mesa.
Ticket to Ride (Days of Wonder, 2004), domínio de rota em vez de território, mapa fixo mas leitura de trajeto competitivo com a mesma leveza de regra e apelo pra mesa mista. Peso leve, 30 a 60 minutos, até 5 jogadores. Veredicto: vale comprar pra quem quer o clássico de entrada que abriu caminho pro gênero.
ONDE COMPRAR
Kingdom Builder: o mapa que muda antes de você jogar
Kingdom Builder na edição nacional, publicada com licença da Queen Games, sai entre R$220 e R$320 nas lojas de boardgame brasileiras, com o conjunto de peças de tabuleiro modular hexagonal representando floresta, deserto, água e planície, as casinhas de madeira coloridas de cada jogador, o baralho de cartas de terreno que guia a construção, e as cartas de reino que sorteiam o objetivo de pontuação da partida, tudo em componentes robustos e regra em português.
É um dos eurogames mais acessíveis da faixa leve pra quem quer entrar em domínio de território sem pagar preço de importado nem enfrentar peso de jogo pesado, com uma caixa que cabe fácil numa coleção que já tem jogo de festa e busca o próximo degrau. A vencedora do Kennerspiel des Jahres em 2011 segue firme como recomendação segura pra quem quer decisão tática de verdade em quarenta minutos de mesa.
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