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Orléans é o jogo em que cada seguidor contratado entra num saco de pano e volta em sorteios futuros: você enfia a mão sem olhar, joga com o que ela trouxer, e mesmo assim a sorte obedece, porque foi você quem encheu o saco.
Criado por Reiner Stockhausen e lançado pela alemã dlp games em 2014, é a caixa que colocou o bag building, a construção de saco, no mapa dos eurogames, e chegou ao Brasil pela Meeple BR Jogos.
O tema é a França medieval do Vale do Loire. Você comanda uma casa mercante em Orléans: recruta camponeses, barqueiros e cavaleiros, despacha comitivas por rio e estrada e ergue feitorias de cidade em cidade.
Roda de 2 a 4 jogadores, fecha em cerca de 90 minutos e marca peso 3.0 na escala do BoardGameGeek, o degrau em que o plano atravessa várias rodadas sem virar aula de contabilidade. O preço BR fica na faixa intermediária pra cima.
A MESA DE HOJE
Um saco de pano, e a sorte vira engrenagem
O coração do jogo é um saco de pano por jogador. Dentro moram fichas redondas de seguidores: camponeses, barqueiros, artesãos, comerciantes, cavaleiros, estudiosos e monges, cada ofício com a própria cor.
A rodada abre com um sorteio às cegas. Você puxa do saco um número limitado de fichas sem olhar, espalha na sua frente e joga a rodada inteira com o que a mão trouxe.
Aí entra a regra que define o jogo: tudo que você contrata entra no saco. O cavaleiro recrutado nesta rodada participa do sorteio da próxima, e cada saco vira um baralho de sorte que o dono escreve contratação a contratação.
As fichas sorteadas viram ações. Cada casa do seu tabuleiro pessoal pede uma combinação exata de ofícios pra disparar, e a ficha que faltou é o plano inteiro parado na mesa até a rodada seguinte.
Os cavaleiros alargam a mão. Você começa sorteando poucas fichas por rodada, e cada cavaleiro contratado soma uma ao limite: o saco cresce, mas a janela pra enxergar o que ele guarda cresce junto.
Os monges são o seguro. Funcionam como coringa, valem por qualquer ofício na hora de pagar uma ação, e o jogador com monges no saco quase nunca sorteia uma mão travada.
Os estudiosos alimentam o scriptorium. Cada visita sobe seu marcador na trilha de desenvolvimento, que destrava títulos de cidadão pelo caminho e define o multiplicador da pontuação final.
A França é o segundo tabuleiro. Barcos sobem os rios, carroças pegam as estradas, cada trecho viajado rende mercadoria, queijo, vinho, lã, grão, e a feitoria erguida na cidade visitada marca território pros pontos do fim.
O relógio do jogo são os eventos. A cada rodada uma ficha revela o que a França cobra ou paga: tem imposto que morde a riqueza acumulada, comércio que paga por mercadoria, e a peste, que sorteia uma ficha do seu saco e a leva embora de vez.
E existe a válvula mais elegante da caixa: as obras públicas. A prefeitura aceita doações, e a ficha enviada pra obra sai do saco pra sempre, paga recompensa na hora e afina o sorteio das rodadas seguintes.
Doar é jogada de mestre disfarçada de caridade. O barqueiro que já cumpriu o papel engorda no saco a chance de puxar o estudioso que falta, e o jogador atento poda o próprio acaso como quem apara uma cerca viva.
São 18 rodadas cravadas, e a conta final multiplica. Moeda e mercadoria valem pontos diretos; feitorias construídas somadas aos títulos de cidadão multiplicam pelo degrau alcançado na trilha de desenvolvimento.
Quem veio do caldeirão do Quacks reconhece o gesto na hora, a mão no saco, o frio na barriga da puxada. A diferença é o espelho: no Quacks a ficha que explode já veio de fábrica dentro da sacola; em Orléans a ficha errada tem a sua assinatura, porque foi você quem a pôs lá.
O sabor é esse: em Orléans ninguém reclama da sorte por muito tempo, porque o saco só devolve, sorteio após sorteio, exatamente as escolhas que você fez.
PARA QUEM VALE
Para quem vale, e para quem não
Vale pra quem domou o caldeirão do Quacks e quer o degrau seguinte. O gesto de puxar às cegas é o mesmo, mas aqui cada puxada alimenta um motor de 18 rodadas, com mapa, trilha e mercadoria em volta.
Vale pra quem gosta de montar motor com caminhos abertos. Saco de cavaleiros, corrida de feitorias, pirâmide de estudiosos, monte de mercadorias: são estratégias distintas que ganham partidas, e a caixa não força nenhuma.
Vale pra mesa impaciente com a vez dos outros. O sorteio e o planejamento acontecem ao mesmo tempo pra todos os jogadores, e a espera se resume à execução das ações, curta e visual.
Vale pra quem rejoga até gastar. A ordem dos eventos muda a cada partida, os vizinhos disputam outras cidades, e a expansão Invasão ainda adiciona modos cooperativo e solo pra tirar o jogo da disputa.
Não compre quem precisa de conflito direto. Cada um cuida do próprio saco e do próprio motor; a disputa mora na corrida por cidades e títulos, e ninguém derruba a engrenagem do vizinho.
Não compre quem exige controle absoluto em jogo pesado. Dá pra calibrar o saco até a sorte quase sumir, mas a rodada em que o plano pedia estudioso e vieram três camponeses existe, e ela dói.
Não compre quem só senta pra caixa rápida. São vinte e tantos minutos de explicação, mesa larga de tabuleiros e fichas, hora e meia de partida: a noite de terça com meia hora livre não é o habitat dele.
O veredicto. Orléans pegou o sorteio às cegas, o gesto mais aleatório das mesas, e o transformou na engrenagem mais calibrável do peso médio: cada contratação é uma aposta que volta, cada doação poda o acaso, e o saco no fim da partida é o retrato fiel das decisões do dono.
A França do Loire veste essa matemática com mapa, corrida e mercadoria, e as 18 rodadas passam depressa de tanto plano pedindo encaixe. Peso 3.0, de 2 a 4 jogadores, 90 minutos e preço BR na faixa intermediária pra cima, é o degrau exato entre o jogo de família e a estante séria. |
NO RADAR
Três motores na família do Orléans
Três jogos que dividem o mesmo DNA de sorte calibrável, cada um com o próprio recipiente: o caldeirão que explode, os sacos dos Andes e os dados que a cidade inteira divide.
Quacks of Quedlinburg (Schmidt Spiele, 2018), a disputa de alquimistas de Wolfgang Warsch em que você puxa fichas da própria sacola pra encher o caldeirão e a cereja branca a mais explode a panela da rodada. Peso médio-leve, cerca de 45 minutos, de 2 a 4 jogadores. Veredicto: vale comprar como porta de entrada no bag building antes de encarar Orléans.
Altiplano (dlp games, 2017), o bag building que o próprio Reiner Stockhausen levou pros Andes, com lhamas, cacau e um armazém que só pontua mercadoria bem arrumada. Peso médio, cerca de 90 minutos, de 2 a 5 jogadores. Veredicto: vale comprar pra quem terminar Orléans querendo mais saco e menos mapa.
Troyes (Pearl Games, 2010), o jogo de dados na França medieval em que a catedral sobe ao longo dos séculos e até os dados dos rivais estão à venda por moedas. Peso médio, cerca de 90 minutos, de 2 a 4 jogadores. Veredicto: vale comprar pra mesa que quer a mesma época com dado no lugar de ficha.
ONDE COMPRAR
Orléans: um saco de pano e uma França inteira na mesa
Orléans vive na prateleira intermediária pra cima das lojas brasileiras, geralmente entre R$350 e R$500 na edição nacional da Meeple BR Jogos, com os sacos de pano, a pilha de fichas de ofício e o mapa do Loire dentro da caixa.
A edição da Meeple BR traz tudo em português, e a diferença aparece na primeira noite: as casas do tabuleiro pessoal e os eventos de rodada saem legíveis na própria mesa, e ninguém pausa a partida pra decifrar manual.
Pela régua de custo por partida, a caixa se paga em profundidade. Cada partida de hora e meia carrega dezenas de sorteios e decisões, e a vontade de testar outro formato de saco na revanche é o que segura Orléans na mesa por anos.
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