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Welcome To... resolve o problema mais chato de mesa cheia: a fila da vez. Aqui ninguém espera ninguém. Uma carta vira no centro, e todo mundo, você, o vizinho e mais dezenas de pessoas se quiser, marca aquele mesmo número na própria folha ao mesmo tempo.
Desenhado por Benoit Turpin e publicado pela Blue Cocker em 2018, é um flip-and-write competitivo para 1 a 100 jogadores que dura de 25 a 45 minutos e pesa 1.8 numa escala de 5.
A mesa é um subúrbio americano dos anos 1950, e cada folha é um bairro que você loteia casa por casa, numerando lotes, construindo cercas e subindo o valor das quadras.
O jogo entra em uma explicação e nunca trava, porque o motor central é simples: o mesmo baralho serve a mesa inteira, e a decisão é sempre sua, na sua folha, sozinho e junto ao mesmo tempo.
A MESA DE HOJE
A fila da vez some
O baralho tem cartas com dois lados. De um lado um número de 1 a 15, do outro um ícone de ação. Três montes ficam virados no centro. A cada rodada você olha o topo de cada monte e escolhe um par: o número de uma carta com a ação de outra.
Esse número você escreve numa casa vazia da sua rua, respeitando uma regra só, cada rua tem que subir da esquerda para a direita.
O truque está no "ao mesmo tempo". Todo jogador enxerga os mesmos três pares e decide em paralelo. Não existe turno individual, não existe esperar o vizinho pensar. Some a fila da vez, some o downtime, e o jogo de vinte pessoas termina quase no mesmo tempo do jogo de quatro.
É essa mecânica que destrava a escala absurda de até cem folhas na mesma rodada.
A ação que acompanha o número é onde mora o jogo. Cerca divide a rua em quadras, e quadra fechada no tamanho certo vale pontos. Parque e piscina sobem o valor das casas. Agência de emprego libera bônus. Anexo transforma um número já escrito em outro, a única forma de corrigir um lote que você encaixou errado.
Cada carta é um pequeno dilema: o número perfeito costuma vir com a ação errada, e a ação que você precisa costuma vir com o número que não cabe.
O que amarra tudo são os objetivos da cidade. Três metas comuns ficam na mesa, do tipo maior quadra fechada ou mais parques construídos. Quem bate primeiro vira a carta e trava o valor cheio; quem chega depois pega a metade.
A meta virada injeta uma corrida silenciosa por baixo do solitário: você joga na sua folha, mas de olho no ritmo dos outros, porque um objetivo virado não volta.
A partida termina quando alguém completa três objetivos, preenche todas as casas de um valor de bairro ou erra três vezes seguidas por não ter onde escrever o número sorteado. Aí cada um soma a própria folha: quadras, parques, piscinas, bônus, menos os erros. Ganha a maior pontuação, e a diferença costuma sair de duas ou três decisões pequenas que pareciam iguais no meio da partida.
PARA QUEM VALE
Para quem vale, e para quem não
Welcome To vale para grupo grande que cansou de ver metade da mesa no celular esperando a vez. Ele é o raro jogo que fica melhor quanto mais gente entra, porque a escala não adiciona tempo de espera, só adiciona folha.
Serve de abridor de noite, de quebra-gelo com quem nunca jogou nada, e de fechamento leve depois de um jogo pesado. Também é excelente porta de entrada: a regra cabe num guardanapo, e a primeira partida já sai fluida, sem ninguém travando o resto da mesa pra aprender.
Vale ainda para quem gosta de otimização seca de folha. Por baixo da estética fofa de subúrbio existe um puzzle de encaixe apertado, e o jogador que curte espremer o último ponto de uma planilha encontra profundidade real na decisão de qual número sacrificar. O modo solo entrega o mesmo puzzle contra uma pontuação-alvo, e roda em quinze minutos.
Não compre esperando interação direta ou confronto. Ninguém ataca a folha de ninguém, e a única disputa é a corrida pelos objetivos comuns, que é indireta e silenciosa. Quem quer negociar, blefar ou empurrar o adversário vai achar o jogo frio, porque cada um resolve o próprio bairro em paralelo, sem se tocar.
É um multiplayer solitário assumido, e essa é a proposta, não um defeito. Também não é jogo de peso pra quem busca uma tarde inteira de decisão densa. As escolhas são boas, mas rápidas, e a partida fecha antes de virar maratona. Quem procura o euro de três horas com motor econômico complexo vai achar Welcome To raso demais para a sessão principal, ainda que perfeito para o intervalo entre elas.
O veredicto. Welcome To pegou o roll-and-write e trocou o dado por um baralho compartilhado, e nessa troca resolveu a maldição da mesa cheia. A fila da vez some porque todos jogam a mesma carta ao mesmo tempo, e o resultado escala de solo a dezenas sem inchar o relógio.
Não é jogo de confronto nem de tarde longa, é o melhor abridor e quebra-gelo de grupo grande que o dinheiro leve compra, com puzzle de encaixe que aguenta rejogar. |
NO RADAR
Três jogos que conversam com Welcome To
Railroad Ink (Horrible Guild, 2018), roll-and-write de traçar rotas de trem e estrada numa grade, todos usando os mesmos dados ao mesmo tempo. Peso 1.6, 30 minutos. Veredicto: vale comprar para quem quer a mesma ausência de espera com um puzzle mais espacial.
Cartographers (Thunderworks, 2019), flip-and-write de desenhar mapa de fantasia numa folha, com cartas compartilhadas e pontuação por objetivos. Peso 1.9, 45 minutos. Veredicto: vale comprar como próximo passo de quem gostou de Welcome To e quer mais tema e mais decisão.
Ganz schön clever (Schmidt, 2018), roll-and-write solitário de dados encadeados em que cada escolha destrava outra. Peso 1.7, 30 minutos. Veredicto: vale esperar uma promoção se a estante já tem um roll-and-write cobrindo a faixa leve.
ONDE COMPRAR
Welcome To: escala de solo a festa
Welcome To... na edição nacional sai entre R$129 e R$189 nas lojas de boardgame, com bloco de folhas, baralho e regras totalmente em português. É preço de jogo leve, e a caixa é pequena e fácil de levar, então o frete pesa pouco.
Vale comparar mesmo assim, porque o estoque some e volta em ciclos e o valor oscila bastante entre loja e loja. O que justifica a compra é a escala rara: um único jogo cobre desde a noite solo até a mesa lotada de festa, e o bloco de folhas rende dezenas de partidas antes de acabar. Reposição de blocos existe barato no catálogo, então o jogo não morre quando o papel termina. Quem quer a mesma escola sem espera com desenho de mapa pode olhar Cartographers antes de decidir.
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